Há discos sombrios porque alguém decidiu que eles deveriam soar sombrios. E há discos que parecem simplesmente registrar o estado em que seus autores se encontravam.
Pornography pertence muito mais ao segundo grupo.
Quando o The Cure entrou no RAK Studios, em Londres, para gravar o álbum que seria lançado em maio de 1982, Robert Smith, Simon Gallup e Lol Tolhurst já vinham de um período de desgaste brutal. A banda havia passado 1981 promovendo Faith e acumulado quase 120 apresentações durante o ano. Fora dos palcos, a situação também estava longe de ser tranquila: Lol havia perdido a mãe para o câncer e Robert perdera a avó.
Os três, porém, não eram exatamente bons em conversar sobre aquilo.
Segundo Lol Tolhurst, perdas, medos e vulnerabilidades raramente eram discutidos diretamente entre eles. Continuavam tocando, bebendo, convivendo e empurrando o que sentiam para algum lugar onde ninguém precisasse falar a respeito.
Foi nesse estado que começaram a fazer Pornography.
O “vai se foder” definitivo
Robert Smith tinha uma ideia bastante clara do que queria.
Lol recorda que Robert definiu a intenção do álbum como fazer o “ultimate fuck off record”, algo como o disco “vai se foder” definitivo. Não havia intenção de amenizar o que a banda estava fazendo ou tornar aquele material mais confortável.
A frase ajuda a entender Pornography melhor do que qualquer tentativa de encaixá-lo simplesmente em uma estética “gótica”.
O confronto estava no som, mas também no modo como o disco foi construído.
As gravações aconteciam no RAK Studios, em St John’s Wood, com produção de Phil Thornalley e do próprio The Cure. Robert, Simon e Lol também estavam morando nos escritórios da gravadora durante aquele período. As sessões atravessavam a madrugada e chegavam ao amanhecer.
Estúdio, descanso e convivência praticamente deixaram de ter fronteiras.
E havia álcool. Muito.
A loja de bebidas do outro lado da rua
Do outro lado da rua do RAK Studios existia uma loja de bebidas. O The Cure fez um acordo com o proprietário: os músicos escolhiam o que queriam e o filho do comerciante levava caixas para o estúdio durante a noite.
A conta ficava aberta e era paga semanalmente.
Na lembrança de Lol, o consumo da banda chegou a dobrar o faturamento do estabelecimento durante os meses em que permaneceram ali.
O cenário descrito por ele é de uma rotina cada vez mais fechada: os integrantes moravam no escritório da gravadora, gravavam durante a madrugada e praticamente não viam a luz do dia. Álcool e outras substâncias faziam parte desse cotidiano, enquanto paranoia, ansiedade e exaustão se acumulavam.
Mas Pornography não ganhou sua identidade apenas porque três sujeitos estavam destruídos dentro de um estúdio.
Houve decisões musicais muito concretas para fazer o álbum soar daquela maneira.
Lol virou as baquetas
Parte daquele impacto veio da bateria.
Lol Tolhurst usou uma caixa militar de fanfarra com dez polegadas de profundidade, comprada de John Bradbury, baterista do The Specials. Suas baquetas também tinham especificações próprias e, durante boa parte da gravação, ele resolveu tocá-las ao contrário.
Em vez da ponta tradicional, batia na caixa usando o lado mais grosso.
A intenção era conseguir um ataque seco e direto, eliminando pequenas nuances da execução e aproximando a bateria de uma marcha rígida.
Isso ajuda a explicar por que a bateria de Pornography parece menos interessada em acompanhar as músicas do que em empurrá-las continuamente para frente.
Mas uma das experiências de gravação foi ainda mais extrema.
Uma caixa de concreto e um som ensurdecedor
Alguns ataques de prato foram gravados posteriormente, separados da bateria.
Para isso, Lol levou um prato a um anexo recém-construído do RAK Studios. O lugar ainda não possuía tratamento acústico. Era basicamente uma sala vazia de concreto.
E então ele começou a tocar.
O volume produzido naquele espaço era tão alto que Lol precisava virar a cabeça a cada batida para suportá-lo. Em Cured, ele atribui àquela sessão o início de sua perda auditiva permanente. É importante fazer a distinção: trata-se da avaliação do próprio Lol sobre o que aconteceu com sua audição.
O que poderia parecer apenas mais uma história absurda de estúdio diz bastante sobre a lógica de Pornography.
A agressividade não estava sendo simulada. Ela estava sendo construída fisicamente.
E um dia apareceu o violão de “Stairway to Heaven”
Nem tudo nas sessões era tensão.
O RAK Studios pertencia ao produtor Mickie Most, que ocasionalmente aparecia com instrumentos incomuns. Em uma dessas noites, segundo o relato de Lol, Robert Smith recebeu para experimentar o violão usado por Jimmy Page na gravação de “Stairway to Heaven”.
É uma imagem quase surreal: o The Cure no meio das sessões de um de seus discos mais sufocantes e Robert Smith segurando um instrumento associado a uma das gravações mais famosas do Led Zeppelin.
Siouxsie Sioux também apareceu pelo estúdio durante aquele período.
Enquanto o álbum ganhava forma sonora, outra transformação acontecia diante do espelho.
O batom chegou aos olhos
A aparência do The Cure durante a fase Pornography não surgiu desconectada do disco.
Os cabelos, antes apenas desgrenhados, passaram a ser armados e fixados. Mas o elemento que mais chamava atenção era o vermelho.
Robert Smith começou a espalhar batom vermelho não apenas pelos lábios, mas também ao redor dos olhos. Simon Gallup e Lol Tolhurst adotaram versões menos exageradas da mesma maquiagem.
Ao recordar a aparência de Robert, Lol escreveu que parecia que seus olhos estavam sangrando ou que alguém havia passado uma faca por seu rosto. Essa é a descrição de Lol sobre o efeito visual da maquiagem, não a indicação de que a banda pretendesse literalmente representar ferimentos.
A mesma vontade de confronto presente no disco começava a aparecer na imagem da banda.
O som e o visual estavam contando a mesma história.
Pornography terminou. O trio quase terminou junto
Se toda aquela tensão tivesse ficado registrada apenas no álbum, a história já seria pesada o suficiente.
Não ficou.
Durante a turnê europeia de Pornography, o desgaste acumulado finalmente explodiu. Em Estrasburgo, Robert Smith e Simon Gallup acabaram envolvidos em uma briga física em um clube noturno. Na manhã seguinte, Robert pegou um avião sozinho de volta para Londres, deixando a turnê para trás.
Foi necessária a intervenção de Alex Smith, pai de Robert, para convencê-lo a retornar e cumprir os compromissos restantes.
O fim daquela formação veio pouco depois.
No último show do trio, no Ancienne Belgique, em Bruxelas, a banda terminou em completo caos. Durante “Forever”, os músicos trocaram de instrumentos. O roadie Gary Biddles tomou o microfone e começou a insultar integrantes da banda. Robert respondeu arremessando as baquetas.
Depois disso, os três deixaram o palco.
Simon Gallup saiu do The Cure e só retornaria no final de 1984.
Um disco nascido da própria situação da banda
Décadas depois, Lol Tolhurst encontrou uma explicação para a permanência de Pornography.
Para ele, o álbum envelheceu bem justamente porque não nasceu da tentativa de acompanhar a moda de 1982. Nasceu, em suas palavras, do desespero e da “loucura peculiar” daqueles três músicos.
Talvez seja por isso que Pornography ainda soe tão pouco decorativo.
A bateria seca não era apenas uma escolha estética. A sala de concreto existiu. As madrugadas existiram. A bebida existiu. O luto existiu. A incapacidade de três amigos conversarem sobre o que estava acontecendo entre eles também existiu.
Robert Smith queria fazer o disco “vai se foder” definitivo.
O The Cure conseguiu.
Só que, quando terminou, a banda que entrou no estúdio praticamente já não existia mais.
Fonte
Lol Tolhurst, Cured: The Tale of Two Imaginary Boys, especialmente o capítulo 13, “Porn”.




